Um adolescente no território


Pedro Robles

Nos últimos anos me dediquei a escutar o sofrimento na adolescência com
especial atenção, o que me convocou a reunir referenciais teóricos afim
de construir um território de partida. Nas e entre as linhas seguintes tentarei expor
a direção que caminho.

A história do sofrimento psíquico é escrita pelas mudanças nos laços sociais. Nos últimos cinquenta anos,
as relações foram marcadas pela presença crescente da lógica neoliberal, onde o
reconhecimento da sociedade como tal passa a ser muito mais guiado pelo
imperativo do mercado, enfraquecendo a noção de coletivo que entre outras
transformações, ecoam sobre as subjetividades.

As novas formas de composições familiares, as novas interações sociais possibilitadas
pelo campo virtual, como também o fortalecimento dos movimentos identitários,
entre outros, possibilitaram questionar estereótipos e desconstruir padrões. Processo
que intensificou relações mais fluídas, menos estáticas e menos binárias, que
por sua vez tem efeitos na construção das subjetividades, principalmente na
adolescência. Em plena transformação, num período entre a infância e o mundo
adulto, o adolescente agora precisa compor seu vocabulário a partir de múltiplas
ofertas fornecidas pelos novos tipos de relações.

É neste processo em que o sujeito se vê cada vez mais só, com pouca
sustentação coletiva que crescem as perturbações contemporâneas.

O universo virtual é um importante fator neste processo, ao passo que ganha
espaço sobre o real, mudando as relações. Não há um outro ali que singularize a
experiência com ele e os saberes ficam delegados a lógica  google
que fornece respostas prontas, inibindo o processo de construção do saber a
partir da experiência vivida. A virtualidade suprime o tempo e a distância,
elementos importantes no processo do sujeito, que navega solitário e deriva no
oceano de estímulos esvaziados de sentidos. A complexidade implícita das
relações humanas, a polissemia, a relação com a espera e o lidar com as
frustrações são achatados pelo ambiente virtual e sem estas experiências, o
sujeito se vê desamparado.

Na clínica com adolescentes, além das particularidades do universo de
cada sujeito, são recorrentes as questões entorno do desânimo profundo,
sensação de deslocamento, aspectos de solidão e desamparo. Os sofrimentos parecem
estar ligados a falta de perspectivas do campo social onde não há uma
sustentação do coletivo. Parecem sujeitos num vagar errante e sob névoa rumo ao
mundo adulto.

Fragmento

Há dois anos, me ligou aflita a mãe do Caio, 13, por ver o filho não
conseguir ir à escola há seis meses. Ele apresentava situações de forte
ansiedade a caminho da escola  fazendo com que  retornasse para casa. Ou tampouco
conseguia sair da cama.

A mãe me pedia para acompanhá-lo no trajeto da escola e mesmo eu reconhecendo
a questão escolar como a ponta de um iceberg, topei iniciar o trabalho dessa
forma. Anteriormente, Caio havia tentado outros processos de análise no
consultório, mas permanecer no ambiente restrito e falando de suas dores era
algo insuportável. Fazia pensar que algo antes precisava ser construído para que
ele pudesse chegar ao consultório.

As tentativas de ir à escola falharam, somando mais frustrações.  E, juntamente com os pais foi decidido que tentaríamos novamente apenas no ano seguinte. Agora, sem a obrigação de retornar a escola, vagamos pela cidade rumo a algo que desconhecíamos.  Caminhamos quilômetros acompanhados dos assuntos habitados pelo o que a cidade apresentava e por questões que Caio trazia, anunciando seu grande desânimo e solidão.

Com o passar do tempo, começamos a fotografar os trajetos e Caio passou
a construir, por meio das fotos, uma narrativa própria que mais tarde expressou na
cena pública pelos lambe-lambes que fixamos nos muros da cidade. Durante o processo
assisti um garoto se fortalecendo, que mesmo com dificuldade, voltou a
frequentar as aulas no início do ano seguinte. Esse trajeto foi bastante
sinuoso e irregular, mas hoje pode ser seguido através
das palavras no consultório.

Em meio a tudo isso, ocupar as ruas, fazer delas o espaço de projetos com
adolescentes, parece ser um caminho possível de trabalho. Cruzando a cidade, um
território é conquistado. No encontro com o outro é tecida a noção de coletivo.
Assim como, as diversidades e as complexidades das relações são apresentadas na
experiência, que quando vividas com o outro, podem representar aquilo que
atinge o corpo. O espaço público possibilita ao sujeito encontrar elementos
simbólicos do mundo, inventando e construindo o seu território nele.

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