Dois dias pelos caminhos do Ó

Paula Janovitch

* Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto
com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto,
artista gráfico, ganhou incentivo do Proac para fazer este lindo projeto
de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do
que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado
pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus
moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de
seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho
do Ó, Praça das Porteiras ( Praça da Árvore). Segue um pequeno relato
afetivo destas duas caminhadas.

 Ontem conversei com a Lívia, que já
esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a
nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo
diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é
algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem
percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo:
um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento.
E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e
perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é
radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no
 espaço e no cruzamento de vistas.

Filme de Livia Gabbai apresentado na abertura da Exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.,

Cena do filme na Marginal do Tietê.

 Filme de Livia Gabbai apresentado na abertura da Exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida. Ao fundo, Jeff Keese. Cena do filme na Marginal do Tietê.

 No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó
desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos
pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de
mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa
vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes  para acomodar um novo 
 morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem. 

Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com
impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no
início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo
antigo Caminho do Ó ( Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas
dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e
antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o
local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias,
tudo era mais perto. 

Fotografia
tirada sobre o escadão. Primeiro obstáculo da Avenida Sta. Marina. Dna.
Neide subindo o escadão que passa pela linha do trem e lá embaixo, na
rua, Renato Hofer desenhando. 2017

 Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um
barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp,
gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça das Porteiras
( antiga referência da Praça da Árvore) , antes da cancela do trem. E
as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó,
lá do outro lado do rio Tietê
. Fez todo sentido. 

 Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado
da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo
Caminho do Ó. 

O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares
e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da
avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus
jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta
fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de
outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente
do campo para a produção fabril
.  

No jardim uma moça desenhou um peixe.  Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando
agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária,
“Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa
linda ali na antiga  Chácara/ Instituto  Rogacionista
!!! 

Saindo de lá, a Vidraria Santa Marina domina a quadra do outro
lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada;
dormem os fornos, as chaminés?  descansam os homens. 

 Paula Gabbai desenhando em placa de metal no escadão.

 O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo.
Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina
Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali
se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o
barulho da borracha de tênis  em atrito com o piso de cimento da quadra
do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar.
Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a
pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra
o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da
Avenida Santa Marinex!!!! 

 Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso
terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na
última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro
para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por
isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que
antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada
ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e
olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar
ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo
lembrar do lugar através dos nossos pés. 

Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.

 Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos
mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para
prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance
alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos
sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti
é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao
virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê,
encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal.
Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê.
Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé
mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos
tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio. 

Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da
Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos
carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a
Marginal é nosso quarto obstáculo. 

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado
descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a
mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de
caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro.
Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho
estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito
convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta
árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte
tão “des-humana”. 

 Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de
madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era
baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma
rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma
coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos
?! 

Ponte da Av. Santa Marina ligando os dois lados, Caminho antigo do Ó. SARA Brasil, 1933

 Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no
entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como
motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não
só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas
granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são
impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer
ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta
todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos
subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da
Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que
margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e
vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando
também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou
risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o
rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens
fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo
encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!! 

 Agora vamos subir. A Igreja esta bem pertinho. Mas a
ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência
mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente
consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro
obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se
armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não
adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens,
mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que
chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a
cidade e muito menos o caminho dos homens. 

 Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega
dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto
cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o
lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com
seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo
que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!
 

 Mais sobre este post:

  • Para quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto
    Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com
    orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida
  • O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz,  esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.
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