A ESCUTA DO FORA E A ESCUTA DO DENTRO


Miriam Chnaiderman

Era uma tarde ensolarada, novembro. Muito calor. Eu, no meu consultório, ia vivendo meu lugar de psicanalista, confortavelmente instalada em minha poltrona atrás do tradicional divã. 

Os consultórios de psicanalistas parecem montados para darem uma idéia de atemporalidade. Lembro sempre do consultório de Freud, com os tapetes persas e os objetos antigos, arqueológicos, trazidos de viagens aos confins europeus. No seu caso clínico, “O homem dos ratos”, Freud aponta seus objetos arqueológicos para exemplificar a atemporalidade do inconsciente.   Em meu consultório, também minhas lembranças, não tão arqueológicas ou antigas… Artesanato brasileiro, bonecas de pano, meus livros amontoados na mesa, meus quadros. Uma certa bagunça de um dia a dia de leitura e escrita e escuta. Lembro que quando iniciei minha primeira análise, início da década de 70, eu ainda estudante, havia psicanalistas que achavam ter quadros nas paredes do consultório uma heresia. Era preciso que ao analista propiciasse ao paciente uma tela branca para suas projeções. Assim, a roupa deveria ser a mais discreta possível, o analista deveria manter sempre uma aparência discreta e estável. As interferências externas deveriam ser as mínimas necessárias. Lembro de uma conversa que tive com uma psicanalista hoje didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise, onde ouvi que não havia qualquer interesse no quanto um paciente ganharia para pensar no preço de uma sessão, pois o que interessaria seria o mundo interno. Como se o mundo interno fosse uma entidade essencial ao qual nós, psicanalistas, devêssemos aceder. 

As paredes daquele meu consultório foram construídas para vedarem qualquer passagem de som. É como se, ao adentrar aquela sala, um silêncio invadisse o ambiente para que o inconsciente pudesse aflorar sem qualquer interferência do mundo. 

Entrar naquela sala, saindo do burburinho da rua e da caminhada que faço para chegar, era sempre algo que me centrava. Aguçava minha escuta, me recolocava sempre em meu lugar. 

Naquele dia de meio da semana, eu ia seguindo minha rotina, recebendo meus analisandos. É de uma riqueza única esse contato tão íntimo e especial com cada um. Meu encantamento é imenso.

Sempre que abro a porta , no final da sessão, naquele consultório eu podia enxergar os prédios de Higienópolis, ver o céu, sentir o movimento na rua. Mas, as janelas do consultório, dão para a piscina de um desses prédios chiques.  Muitas vezes o ruídos de crianças brincando ao final da tarde invadiu sessões. Aí, eu fechava a janela. 

Os sinos da igreja em frente eram o único ruído que eu não tinha como silenciar. Era o bimbalhar tão raro em nossos dias, lembrando igrejas medievais. Mesmo nesse momento, a sensação era de atemporalidade. Um rasgo nesse mundo eletrônico. Um rasgo que levava os pacientes a silenciarem, respeitosamente,  e esperar que o um minuto em que o sino tocava passasse. Sempre perto do meio-dia e perto das 18:00. 

O sino já havia tocado, era meio da tarde. Abri a porta da sala de espera, e L. entrou. 

Seus quarenta e poucos anos se faziam mostrar nos fios brancos de um cabelo preso em um rabo-de cavalo. Cuidados. Aparados. Camiseta e jeans. 

L senta no divã. Não deita. Vem de um internamento de dois meses.

Vou escutando sua fala. Sua fala sobre esse limite tão tênue  , entre a vida e a morte.

Subitamente,  um estouro na rua. A rua existe? Eu continuo presa à fala da L.  É uma fala sofrida, de alguém tateando no mundo do trabalho, no mundo ordinário.

Depois do estouro, que parece bombinha da São João  - mas estamos em outubro, as festas juninas já terminaram…  – sirenes soam.  A correria na rua, o ruído de passos apressados invade aquela sala sagrada.  Fico em silêncio, atenta às palavras de L.

Começo a ser tomada por uma angústia. Uma angústia que não tem a ver com o que L. vai me falando. Não se trata de identificação projetiva – não são as angústias de L. que eu estou vivendo. Nem as minhas. É algo que brota da janela, e que vem da rua.  Sirenes ressoam janela adentro. Faço um imenso esforço para escutar L.  

Lembro de  quando fui trás de um psicanalista recém chegado d Londres para iniciar uma nova análise.  Enfrentei uma São Paulo caótica,  com greve dos transportes públicos. Era uma primeira entrevista e eu consegui chegar com trinta minutos de atraso. E tive que ouvir que o congestionamento era interno. 

Mas, agora, com L. , , um helicóptero parece adentrar a sala. Falo ou não a L. do que está ocorrendo? Mas, o que está ocorrendo? Não tenho como falar em ruídos internos.  

Fico atenta para captar na fala da L.  qualquer indício dessa invasão atroz, aguda, dolorida,  que ocorria naquela sala atemporal.  

Lembrei de um momento da minha primeira análise:  era a Copa de Futebol , o Brasil jogava. Minha sessão começava durante o segundo tempo do jogo. Vou, a contragosto , à minha sessão. O Brasil ganha. O consultório de meu primeiro analista, naquele momento, era em pleno coração paulista.  Quando o Brasil ganha, os fogos pipocaram. Em seguida, uma batucada maravilhosa invadiu aquela sala.  Uma batucada onde nossas vozes só podiam silenciar. A uma certa altura, nós dois concluímos que seria impossível realizar a sessão.  Naquele momento, eu, aos 20 anos ser chamada de senhora,  comparecer àquela sessão cinco vezes por semana, encontrar um analista sempre com a mesma cara, nada disso valeu…  O mundo nos invadiu e tivemos que nos curvar a ele. 

Naquela minha sala onde as paredes são vedadas, a realidade se fez mais forte do que o isopor colocado no cimento das paredes.

Houve um momento em que os helicópteros – que pareciam se multiplicar absurdamente – pareciam sobrevoar nossas cabeças.  E L. continuava sua fala, como se nada houvesse. Afinal, as invasões e catástrofes internas eram tão monumentais que aquilo que invadia a sala ficava minúsculo.

Mas, o ruído dos helicópteros só aumentava. E sirenes soavam de todos os lados. Ruído de passos na rua.  E L. continuava falando. 

L. acabara de sair de um internamento.  Um internamento conturbado. Com episódios duros onde a morte beirou seu cotidiano. O que, aliás, caracterizava seu dia a dia desde a adolescência.  Escolhi não falar do burburinho de fora. Dura escolha.

Depois que l. se foi, passados  os cinquenta minutos usuais, eu desci até a portaria para saber o que havia acontecido. Os helicópteros ainda sobrevoavam a região, mas o ruído era cada vez mais esparso. Soube então que na esquina, um assaltante fora  baleado e jazia na calçada. Havia roubado um celular de alguém dentro de um desses carrões importados. Para azar seu, esse alguém era um investigador policial. Assim que entregou o celular, saiu do carro com um revólver, deixou o carro ir ladeira abaixo até esbarrar no muro de um shopping center próximo, e alvejou o assaltante.  Que morreu instantaneamente.  O corpo jazia na calçada, bem na ladeira próxima ao meu consultório e do lado da padaria que frequento.  Foram muitas horas até a perícia chegar. 

Fiquei com vontade de parar de respirar.  Afinal, aquele ar estava contaminado de uma morte injusta. Uma dor me cortou. Como é possível uma morte assim? Matar à queima-roupa, sem mais nem menos. Os comentários eram terríveis… era apenas um ladrão, não era um pai de família.  O assassino virou herói. E saiu impune. Pelos noticiários fiquei sabendo que o que movia no assalto era um imenso desespero…. morreu um fugitivo da prisão… 

Aquele corpo estendido na calçada , tão próximo ao meu consultório, permaneceu durante meses me impedindo de fazer o percurso que levava até minha casa.  Aquele corpo ainda está lá.  

Tentando refletir 

Esse episódio faz refletir sobre o que é o trabalho dentro de um consultório e o que é que fazemos quando saímos pelas ruas, buscando escutar a cidade. Parece que mesmo quando estamos protegidos pelas quatro paredes de nossos consultórios a cidade se faz presente. 

Lembrei do lindo texto de Katerina Malichin,  “De língua a língua na linguagem, e então a assunção da fala”. ( Souza Jr. Paulo Sérgio, org, ; A psicanálise e os lestes, SP, Anablume, 2017).  Malichin é grega e atende refugiados sírios. Com a ajuda de intérpretes, oferece sua escuta.  Parece que é isso que podemos fazer.  E não é pouco. 

Antes do relato de dois casos clínicos, Malichin nos expõe seu complexo referencial teórico. Assim inicia seu ensaio: “Somos falentes (parletres), como nos chama Lacan. Durante a nossa incorporação, recorremos ao corpo sem corpo da linguagem – à qual estamos subordinados, nem todos com o mesmo sucesso – a fim de que ele nos conceda um corpo. Não importa se esse corpo está vivo ou morto. ” (p. 15.7) Conta que Lacan falou em “significantização”, demonstrando de que forma “o significante encontra um apoio em objetos materiais por transformação, elevação.”(p. 158) O efeito do significante seria a perda do gozo que jamais será restaurado. Mas, até mesmo a linguagem “é regida por uma dimensão gozoza (…) já que cada falente investe a linguagem libidinalmente.” (p. 159) E, importante conclusão: “linguagem e corpo cooperam, visto que o corpo torna-se o âmbito em que os significantes se instalam.”(p. 159)

A seguir, Malichin nos fala, a partir da constatação de que o significante não basta porque há o real, vai nos falar da “corporificação” , que é o contrário da significantização

É “o significante que entra no corpo”. (p. 159)

Quando, em uma sessão dentro de um consultório com isolamento de som, a realidade invade, vivemos uma explosão da significantização e vivemos a corporificação. A linguagem deixa de dar conta. 

Malichin vai traçando paralelos entre a linguística e a psicanálise , uma vez que para ambas é a linguagem que está em questão. Mas, para a psicanálise são as línguas individuais que interessam . Malichin pensa a sessão analítica como um dispositivo que transforma o inconsciente , “onde não há linguagem”, em linguagem. Citando, “obriga o mecanismo psíquico a transformar-se em mecanismo de linguagem”. P. 163)

Lendo esse texto, pude entender porque não falei a L. sobre os ruídos de violência que assolavam a rua. L. vivia uma imensa dificuldade no processo de significantização. Drogava-se muito, buscava situações- limite, driblava a morte em seu cotidiano.  Naquele momento de tanta invasão de uma realidade bruta, eu escolhi me aferrar à linguagem, que, naquele contexto era lutar pela vida. 

Malichin tem como questão o trabalho psicanalítico com pacientes que têm uma língua materna outra, diferente daquela em que a análise acontece. Conta de sua experiência com refugiados , quando tem que recorrer a um intérprete na sua oferta de escuta.  Conta como nessa oferta de um olhar que humaniza, busca os significante no corpo. Para ela, o intérprete é figura fundamental nesse trabalho, pois “oferece a morada da língua materna para que o sujeito-refugiado possa ali habitar  de novo….”(p. 171)

Fiquei pensando o quanto aqueles ruídos de sirene e helicópteros não teriam tido o papel de intérpretes da realidade de L.  Estar naquela sala falando para mim, em meio a ruídos que assustam tanto,  funcionou como uma possibilidade de encontrar guarida para tanta violência  na linguagem que buscávamos fabricar em nosso encontro.

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