Um grupo de crianças na noite de SP



Luiza Sigulem

Na quarta feira, dia 30 de maio, Anya (12), Sara (11), Anita (3), Rebeca (6) e Haiany (8) saíram do prédio em que moram na rua Conselheiro Carrão exatamente às 18:25. Andaram apressadamente os 100 metros que as separavam de seu destino, o bar e restaurante Al Janiah e entraram pela porta, subindo as escadas apressadamente, exatamente uma hora antes do horário marcado para o começo do grupo. Estavam ansiosas para voltar às atividades, rever os coordenadores e as outras crianças. Desde que tiveram que ficar um mês fora da ocupação em que residem com seus familiares e outros moradores, elas não haviam mais participado do grupo. Após o incêndio da ocupação do Paissandú que deixou oito vítimas e inúmeras famílias  desabrigadas, seguiu-se uma forte pressão por parte da prefeitura em relação aos movimentos de moradia e muitos prédios tiveram que ser desocupados, dentre eles o das meninas. Porém, após um mês de incertezas e três tentativas de reocupar o imóvel, finalmente as famílias conseguiram voltar para lá, favorecidas por um final de semana de menor policiamento, fruto da paralisação dos caminhoneiros.  


O grupo acabou começando mais cedo, apenas com as seis meninas e os relatos se iniciaram marcados pelo alívio de terem conseguido voltar para casa, permeados pela incerteza sobre o paradeiro de outras crianças e famílias que acabaram se dispersando durante esse período. Quando as pessoas saíram do prédio, cada uma foi para onde podia, a maioria para outras ocupações e algumas acabaram sem comunicação. Ninguém até agora sabia o paradeiro dos irmãos Nicolas, Grazi e Stephanie, participantes ativos do grupo e que estavam sumidos desde o fatídico dia da desocupação. Outro ponto levantado foi a raiva de ter encontrado o prédio completamente diferente da limpeza e organização habituais. Lixo, sujeira, coisas quebradas. No meio do relato, alguém levanta a hipótese te terem sido os seguranças. -Segurança nada, foi a polícia mesmo. Retruca uma das meninas. 


Quarta Feira dos amigos, Grupo do Falafel, Cineminha, Al Janiah Mirim, Kids (pronunciado com sotaque árabe), são todos nomes possíveis do grupo de crianças que acontece todas as Quarta-Feiras na parte de cima do Al Janiah. Cada criança do grupo acabou apelidando de um jeito e os funcionários do espaço também vão inventando formas de se referir ao projeto. A verdade é que o grupo/experimento coordenado por Camila Issa e Rafael Domenes, ainda não tem um nome oficial, ou melhor, possui todos os nomes e nenhum, indicando seu caráter múltiplo e aberto.  


Formado em agosto de 2017, o projeto tem como proposta principal trabalhar o tema da imigração com crianças de variadas idades. Nos últimos dez anos o número de imigrantes e refugiados no Brasil dobrou de tamanho e São Paulo é um dos principais destinos desse contingente. Apesar de ser tradicionalmente local de acolhida de pessoas vindas de fora, o contexto atual é singular, marcado por uma crise global e inúmeras guerras. A dificuldade de imigrar para a Europa, destino privilegiado, fez com que o Brasil tenha se tornado uma opção. 


O próprio Bar e Restaurante Al Janiah reflete esse momento. Criado em 2016, no contexto da vinda de refugiados palestinos da Síria, os primeiros a trabalharem ali, se estabeleceu como restaurante de comida árabe mas também como espaço de cultura. Atualmente possui no quadro de funcionários: 12 palestinos, 2 sírios, 3 cubanos, um Congolês, um Argelino e vários Brasileiros e recebe semanalmente atividades musicais organizadas por pessoas de fora e pessoas daqui. 


Camila e Rafael, relatam que os primeiros encontros, apesar de algumas crianças serem elas mesmas filhas de imigrantes e refugiados, foram marcados pela grande curiosidade em relação aos estrangeiros. O restaurante comporta entre funcionários e clientes, pessoas de todos os cantos, línguas diversas e um cardápio de comidas árabes que a maioria das crianças nunca havia experimentado. “ A comida sempre traz as conversas mais importantes do grupo: O que é isso? Da onde vem? A minha mãe cozinha algo parecido….Quando as crianças provaram o falafel, bolinho de grão de bico típico da Palestina, a maioria cuspiu, agora é o prato predileto. A primeira conversa sobre imigração nasceu da batata com zaatar, que virou o orégano árabe, já o pão saj virou pizza.” 


As brincadeiras também são parte fundamental do processo possibilitando mediações e aproximações à diferentes contextos históricos e geográficos. Os funcionários do espaço são convidados de tempos em tempos à apresentar uma brincadeira de seu país de origem para o grupo. A primeira foi a das “7 pedras”, que Hassan Issa costumava brincar na sua infância em um campo de refugiados Palestinos na Síria. Era bem diferente e demorou para as crianças entenderem. Já a brincadeira do “Prisioneiro” apresentada por Mohhamed Leksir e popular entre as crianças da Argélia, foi comparada com a nossa “Queimada” e caiu no gosto de todos.  


A constituição do grupo é ela mesma heterogênea, além das crianças da ocupação, fazem parte as crianças da Alecrim, escola de classe média da Zona Oeste de São Paulo. Os dois grupos foram se entrosando pouco à pouco e muitas perguntas que eram tabu no início puderam começar a serem elaboradas. “ Principalmente as crianças da Alecrim, tinham vergonha de perguntar coisas sobre a vida das crianças na ocupação. O grupo é muito marcado por uma questão de classes, têm crianças que têm duas casas e outras que não tem nenhuma, foi importante poder nomear esse conflito.” Diz Camila. 


Com o tempo, os integrantes se abriram cada vez mais para essas diferenças internas ao grupo e  foram trazendo relatos que diziam respeito as suas próprias histórias e origens. Nessa pesquisa, uma das meninas descobriu que era Boliviana. Seus pais sempre lhe haviam dito que ela nascera “no meio do caminho” da Bolívia para o Brasil, de onde eles imigraram, mas nunca tinha se dado conta de que entre lá e cá, esse meio do caminho, ainda poderia ser a Bolívia. Mesmo as crianças Brasileiras foram cada vez mais se dando conta de questões identitárias. Passaram a se perguntar o que é ser Brasileiro e a levantar dúvidas sobre xenofobia, racismo e questões de gênero. 


O tema do deslocamento passou então a habitar o grupo, não apenas à partir de do que parece distante mas também através do que está próximo. Na época em que ocorreu o incêndio do Paissandú, tanto as crianças da ocupação quanto as crianças da Alecrim ficaram bastante tocadas com a tragédia e o tema da desigualdade de moradia se impôs como algo urgente a ser tratado. Os coordenadores entraram em contato com um outro projeto com crianças que acontece numa ocupação em pinheiros e as crianças do grupo começaram a se corresponder com elas por cartas. Dentre as perguntas, as mais recorrentes foram tentativas de aproximação: Qual a sua cor preferida? Como é a sua ocupação? Qual a sua idade? Qual o seu time de futebol? E também a vontade de se conhecerem pessoalmente: Vocês vêm nos visitar, ou vamos nós na sua ocupação? Além disso se construiu uma rede de solidariedade, as crianças a de lá que já haviam passado por alguns processos de integração de posse, mandaram muitas frases de incentivo dizendo que estavam torcendo por elas e preocupadas. 


No final do grupo, o bar já vai enchendo de clientes, as meninas vão embora juntas a pé, as crianças do Alecrim esperam os pais que vão leva-las para casa. Camila e Rafael se sentam para conversar comigo enquanto experimentamos o falafel do novo Chef Palestino.  Os dois ficaram apreensivos no último mês e estão aliviados com a volta das crianças para o prédio. Sabem que é da natureza do próprio trabalho que desenvolvem, se haverem com vulnerabilidades e incertezas. Mas no primeiro gole de cerveja, o celular apita e logo uma boa notícia: É a Grazi, ela e seus irmãos estão bem, ficaram na casa do pai no último mês, mas já estão voltando para a ocupação e para o grupo na semana que vem.    

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