A CIDADE FALA


Alessandra Sapoznik

Esse pequeno texto é uma tentativa de avançar na compreensão da
atividade de escuta da cidade que o nosso coletivo vem se propondo a
realizar. Barthes[i]afirma que a cidade é um discurso, e esse discurso é verdadeiramente uma
linguagem: a cidade fala aos seus habitantes, nós falamos à nossa cidade, a
cidade onde nós nos encontramos simplesmente quando a habitamos, percorremos,  olhamos.

Se aceitamos a proposição de Barthes, a ação de Escutar a Cidade é reveladora
de duas suposições: a primeira é que ao afirmamos que realizamos uma escuta da
cidade, estamos supondo que a cidade é um ente, um organismo vivo. E a segunda
é que esse organismo vivo é dotado de uma capacidade de expressão, que a cidade
é capaz de conversar com seus habitantes. Ou de que seus habitantes são capazes
de se expressar através dela.

Como?

Através de seus muros, através dessa espécie de corpo tatuado que
recebe inúmeras inscrições, que apesar de sua transitoriedade, insistem em
lançar perguntas e provocações aos seus habitantes.

O uso das paredes da cidade como espaços de manifestação se conforma
como estratégia política subterrânea, de cunho popular, para dar conta de uma
urgência de comunicar, e de comunicar a muitos. Aquilo que não pode ser
escutado, pelo incômodo que pode despertar, extravasa nos muros da cidade.

Se os muros da cidade se afirmam por sua presença narrativa, existem
outras forma da cidade falar, onde o que parece predominar é o vazio.

Nosso olhar se dirige à esses terrenos vazios ou abandonados, que nos
foram apresentados pelo cinema e pela fotografia, e que podem ser encontrados
nas bordas de qualquer metrópole, em antigos bairros industriais, embaixo de
viadutos e em regiões da cidade tidas como inseguras.

Se nos lançamos em um exercício de associação livre, o que podemos
associar com o terrain vague?

Em sua raiz latina, vague remete a vago, livre e também à
oscilante, impreciso.

Temos aqui um paradoxo: um terreno é um pedaço de terra, fixo,
delimitado por algum contorno, algum limite, porém ao mesmo tempo ele é
oscilante, desocupado, móvel.

A sua mobilidade reside justamente no fato dele ser uma espécie de
corpo estranho no contexto de uma região ou de um bairro, uma espécie de lugar sem
lugar. E ele é também portador de um enigma para aqueles que escutam a cidade:
o que terá acontecido aqui, antes do abandono, antes que sua estrutura virasse
ruína, antes que o que restam de suas paredes virasse suporte para o pixo e
antes que a grama invadisse o concreto?

Em um belíssimo texto, o arquiteto Solà- Morales[ii]
escreve que os terrain vague (…) são lugares aparentemente
esquecidos, onde parece predominar a memória do passado sobre o presente. São
lugares obsoletos nos quais somente certos valores residuais parecem se manter,
apesar de sua completa desafeição da atividade da cidade. São, em definitivo,
lugares externos, estranhos, que ficam fora dos circuitos, das estruturas
produtivas.

O autor mantém uma posição crítica em relação ao papel do urbanismo e
da arquitetura, que para ele seria (…) o da colonização dos espaços, o por limites,
ordem, forma. A  arquitetura seria então
um instrumento de organização, de racionalização, de eficácia produtiva capaz e
de transformar o inculto em cultivado, o baldio em produtivo, o vazio em
edificado.

Difícil ler isso e não pensar nos terrenos vagos como um furo no
discurso da cidade, pela descontinuidade que provocam. Permanecem ali como um
elemento estrangeiro e disruptivo na paisagem, como testemunha de um
acontecimento que não sabemos muito bem como se deu.

Curiosamente esses espaços abandonados, que do ponto de vista
urbanístico estão mortos, pela ausência de funcionalidade, continuam emanando
uma força de atração e de evocação poética tremendas, como retratou Tarkovski
em Stalker.

De onde virá sua força?

Justamente dessa característica informe e flutuante, da possibilidade
de permanecerem como territórios não domesticados, que se lidos do ponto de
vista psicanalítico, poderiam ser entendidos como manifestações do processo primário
e portanto portadores de uma força pulsional bruta, essa mesma força que é a
fonte que alimenta as formações do inconsciente.

Na nossa escuta da cidade, nos interessam os indícios, os fragmentos,
os territórios “menores”, para brincar com o termo literatura menor,
de Deleuze e Guattari[iii].

Menor não se refere ao tamanho, ou à importância, e sim ao elemento de
desterritorialização. Ou seja,  interessa
deixarmo-nos levar por territórios nômades, deslocados, onde possamos entrar em
contato com a estranheza e a diferença que habita na cidade. E por quê?

Porque esses lugares onde se sente a presença do unheimlich na
cidade são também lugares de resistência, habitados por sujeitos em
deslocamento, por pessoas ou grupos que justamente por estar à margem da cadeia
produtiva são capazes de criar novas configurações de vida, que apesar de
precárias e oscilantes como os terrenos vagos, parecem ter algo a nos ensinar
sobre como viver em um solo instável.


[i] BARTHES, R. (1985) La aventura semiologica. Trad.R. Alcalde.Barcelona: Paidós,
1993.


[ii] SOLÀ-MORALES,I. (2002) Territorios. Barcelona: Gustavo Gilli, 2002.


[iii] DELEUZE,G. , GUATTARI, F. (1975) Kafka. Por uma literatura menor. São Paulo: Autêntica Editora, 2014.

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