Escutando a cidade: A sombra e o brilho daquele chão molhado



Soraia Bento

Pensamos um tanto sobre a possível deselegância do gerúndio
no nome do nosso coletivo. Pensamos em contrapartida, que seria uma forma de
garantir a ideia de algo em permanente construção, como única certeza. Um
presente se esticando para os dois lados: o futuro e o passado contidos na
ação. Esse coletivo se organiza em torno do prazeroso ato de perambular
prestando atenção àquilo que passa despercebido no olhar de quem tem pressa de
chegar. Não queremos passar, queremos passagens.

Fazemos percursos físicos, imaginários, literários e outras
possibilidades que não caberiam nesse breve escrito. São verdadeiras jornadas
inclusivas não só da aparente diversidade, mas também do que vive à sombra. O
que nos guia é uma posição psicanalítica, estética e política frente aos de
modos de viver que vamos encontrando.

A pergunta que me norteia nos percursos é O que pode me
dizer isso aqui?
Estou lá, in loco, tentando pôr palavra minha no
que vejo/escuto/toco, ou seja, tentando atribuir significado a partir da
“atenção flutuante”.

A cidade é uma trama complexa de vias em cruzamento; o
inconsciente recalcado na arquitetura; lugar de memória; as relações de poder
entre Estado-sujeito-capital;  é também
composta pela micropolítica de resistência em formato artístico ou militante;
minha casa, sua casa seja lá onde e como for; fileiras e fileiras de latas e
latões com rodas e soltando fumaça; lugar de encontros e desencontros, parques
habitados, lugares vazios … ajuntamento de pessoas e a rua. Especialmente a
rua, porque é o espaço do trânsito, do ir e vir; o espaço intermediário que
liga as coisas às gentes.

Num certo dia, caminhando pelo meu bairro vi um homem
conversando com uma mulher, algo comum, entretanto nesse caso, aquilo não
parecia nada banal. O homem estava vestido com muita simplicidade e aparentava
ser de um universo distinto do dela…ele caminhava cheio de gestos e a moça
ouvia, mas não interagia. Ao chegarmos na esquina a dupla  separou-se sem nenhum aceno, sem nenhuma
palavra de adeus ou algo assim, só seguiram seus nortes. Enquanto percorro meu
caminho ele, na minha frente,  vira-se e
sem nenhum preâmbulo continua a falar, talvez do ponto em que havia parado no
anterior encontro.  Falava sobre justiça
e honestidade, Deus, criação do filho que começa a vida com o resultado do seu
trabalho e grande esforço. Havia orgulho de si, uma desconfiança sobre a
capacidade do filho se acertar na vida, já que o ponto de partida era de algum
privilégio. Não era uma fala desorganizada nem louca e havia  ali uma oportunidade de diálogo. Lembrava
algo de conversa entre passageiros e taxistas, o percurso definindo o tempo do
assunto. Ou quem sabe o tempo de uma sessão de análise bem curtinha. Assim, seguimos
caminhando e falando… Ele também me ouvia. Brevemente chegamos a uma outra
partida, porque percebi que ele não se despede, apenas segue falando. Essa cena
representa um aspecto daquilo que chamamos “escutar a cidade”.

O que nos conduz pode ser a beleza ou seu avesso. Fizemos
percursos  deliciosos, engraçados, mal
planejados que tinham tudo para dar errado e permitiram descobertas
maravilhosas. Como o dia em que fomos, desavisados, visitar um lugar hostil e acabamos
conhecendo uma ótima pessoa que nos “ciceroneou” de forma segura. Fizemos
também alguns percursos que tinham a dor dos despossuídos e o desencanto como
motivo. Lembro um domingo, a prefeitura de São Paulo, sob gestão do Dória,
promover o que considerou “operação de zeladoria e limpeza da cidade”. Retirou
moradores e seus pertences. Essa ação levou alguém a provocar um incêndio na área inferior do Viaduto Julio Mesquita Filho, que destruiu tudo
que lá havia. Fiquei consternada e fui tentar escutar as pessoas que ainda
permaneceram, dessa vez fui só… O conceito de limpeza urbana que encontrei era
na verdade, um destrato com a vida humana, com a desigualdade através de uma
cruel categorização de sujeitos que, a depender do seu endereço, podem ter ou
não valor. Esconder e espalhar as pessoas e seus objetos é a maneira de dizer
que podem ser tratados como coisas. Essa política repetiu-se de forma ainda
mais brutal no fluxo, também região central, conhecida e estigmatizada pelo
nome “Cracolândia”.

O que vi foi algo terrificante; um piso molhado e uns poucos
resistentes começando a reconstruir suas casas. Era julho, fazia bastante frio.
Que coisa difícil, aquele espaço vazio, antes habitado por famílias com suas
casas que já não eram tão improvisadas, agora reluzia com o brilho que o
aspecto molhado cria. Alguns grupos e a trupe do Teatro Oficina corriam para lá
e para cá carregando doações  que
chegavam para amenizar aquela perda. Sim, havia amor e solidariedade na cidade
gelada pelo inverno e pelos maus-tratos. Não consegui parar para conversar
muito, apenas vaguei por aquelas colunas que sustentam o concreto do viaduto.
Experiência sensorial que me deixou sem palavras.

O brilho do piso ficou impregnado na minha retina…

Brilho, luz, sombra são substantivos que remetem obviamente
à luminosidade, mas que guardam relação com ideia, consciente/inconsciente,
humor, elucidação ou o contrário, visibilidade…Tanizaki, no cultuado ensaio “Em
louvor da sombra”, estabelece um dualismo entre o ocidente moderno “iluminado”
e o oriente antigo sombreado. Com fina ironia ele fala do prejuízo para a
beleza e harmonia a presença da luz constante no mundo moderno. A luz que
ofusca, que mostra demais, que enfeia até a mais bela criatura. Como comparar à
delicadeza daquilo que fica insinuado pela sombra, presença marcante do oriente
antigo? Cito: “ A beleza inexiste na própria matéria, ela é apenas um jogo de
sombras e de claro-escuro surgido entre matérias. Da mesma maneira que uma gema
fosforescente brilha no escuro mas perde o encanto quando exposta à luz solar,
creio que a beleza inexiste sem a sombra.”

A beleza e feiura do piso molhado que impregnou minha
retina…

Se a beleza inexiste sem a sombra, a cidade não pode
desconsiderar o seu aspecto sombrio, perverso, de memória difícil.

No início de 2017 aconteceu uma exposição da artista Gisele
Beiguelman no Arquivo Histórico de São Paulo, chamada Memórias da Amnésia.
Nessa mostra, a artista propôs uma reflexão sobre a “história invisível de
uma cidade”, através dos monumentos nômades. O que ela fez foi, literalmente,
derrubar os monumentos , “desmonumentalizar” no sentido de retirá-los da
inocente contemplação. O público encontra então, heróis deitados. Interessante
esse jeito Macunaíma de ser o anti-herói. Com as perguntas “O que você esqueceu
de lembrar?” e o “O que você lembrou de esquecer?”, ela aponta para o
recalcado, o  inconsciente da cidade.

Com nossa vocação para escutadores-perambuladores seguimos
essa experiência de deriva, que nas palavras de Francesco Careri: “é um termo
duplo , uma palavra que carrega consigo a ideia surrealista do acaso e do
navegar ao sabor das correntezas, como um veleiro que se move sem vento e sem
mapa…”

Tanizaki, Junichiro- Em louvor da sombra, São Paulo:
Penguin Classics Companhia das Letras, 2017

Careri, Francesco- Caminhar e Parar, São Paulo,
Gustavo Gili, 2017

Foto: Peu Robles

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